Yves Bernard
Produção e visão na era da internet
Production et Vision à l’ère d’Internet
Yves Bernard (be) Enseignant à l’ERG; responsable de l’association “Imal”, Bruxelles, Belgique
http://www.imal.org
http://www.erg.be/blogs/artNumeur/
Yves Bernard focou as transformações da nossa relação com as imagens, sobretudo a imagem animada, tanto ao nível da criação e produção como do seu consumo. Apontou os suportes digitais e a internet como grandes responsáveis por essa transformação ao criarem uma “jukebox planetária” com inúmeros filmes, múltiplos géneros disponíveis e modificáveis ao infinito em “remixes” e “mashups” num registo amador ou popular. Determinante na era da internet é a explosão de conteúdos gerados pelos utilizadores e a crescente literacia computacional que reflectem a expansão da cultura digital.
Este fenómeno tira partido não só dos fluxos de informação gerados pelas máquinas como do património cinematográfico disponível. A exposição Playlist – comissariada por Nicolas Bourriaud no Palais de Tokyo (2004), comenta o facto elaborando sobre a ideia de “pós-produção” lançada por Bourriaud, e a relação que se estabelece entre djing e arte contemporânea segundo as operações de Crossfading, Pitch-control, Rapping/ MCing, Cutting, Playlists.
O uso do imaginário cinematográfico para colocar questões sobre a forma como os dispositivos modelam e constroem uma percepção da realidade reflecte-se no trabalho de Douglas Gordon - 24h Psycho (1993), que manipula o filme de Alfred Hitchcock num “delay” extremo, ou nas explorações temporais da imagem de Kurt Ralske (Zero frames per second – exposição - 2008), nomeadamente do filme de Jean-Luc Godard “Alphaville” (1965).

A era da Internet é uma era de “mashup”, “remix” e difusão sistemática que a “arte feita para televisão” de Johan Grimonprez – Dial H-I-S-T-O-R-Y (1997) prevê. Não só a ideia de remistura e recombinação do imaginário comum se expandem, como os fluxos de informação sugerem novas formas e dispositivos da fotografia.
Sascha Pohflepp - Blinks and Buttons (2006) concebe uma câmara como objecto em rede que recolhe imagens na net para registar um momento assinalado. Joan Fontcuberta – (googlegrams – 2005) estabelece uma metáfora da ligação da era da Internet com os mass media e consciência colectiva. O colectivo Suwud produz Googorama como uma nova forma de fotografia documental que usa as imagens das “street views” do google.


Não só na fotografia como na imagem animada se encontram novas formulações da imagem. Os utilizadores participam na produção de conteúdo em recombinações que as operações de software potenciam. O projecto de Yves Bernard e Walter Verdin - offfcam (2004) reflecte essa participação, registando a imagem dos utilizadores que é gravada e enviada para a base de dados disponível online em imal.org/OFFFCAM.
O projecto de James Tindall – passing by (2007) estabelece uma viagem interminável constituída por videos enviados ou retirados do youtube. De forma semelhante Oliver Laric – versions of under the bridge (2007), numa abordagem à cultura popular e à proliferação de versões e “remaques” produz uma versão instrumental da música composta de videos amadores encontrados em sites de partilha de vídeos.
Svem König leva as questões da partilha, reutilização de material e a crítica à protecção da propriedade intelectual aos limites com o software “sCrAmBlEd?HaCkZ!” (demonstração) (2006). Concebido para infringir o “copyright” (segundo König) software permite reproduzir um som ou frase com excertos audiovisuais recolhidos de uma base da dados, automaticamente seleccionados para “soarem da mesma maneira”. O efeito é visível no impressionante sCrAmBlEd?HaCkZ!-(Karajan).
O projecto de JoDi, folksonomy blue box (2008) aborda a era da Internet como transformação da percepção do mundo numa imensa superfície comercial, criando símbolos e desconstruindo a representação dada por ferramentas como Google maps ou Google earth. Ainda em torno as webcams, Markus Kison, roermond ecke schonhauser (2006) faz corresponder uma paisagem projectada a um modelo 3D, transformando a imagem em algo palpável.
Os novos dispositivos modelam a percepção da realidade permitindo constantes reconfigurações da imagem em movimento. O projecto de Jérôme Joy nocinema.org. ilustra esta transformação propondo um cinema que nega as suas próprias convenções. Este projecto, iniciado no final dos anos 90, apresenta-se como uma aplicação de streaming que gera sequências improváveis de um filme sem princípio nem fim, sem actores nem guião, que se conjuga com bandas sonoras provindas de uma base de dados alimentada pelos artistas que colaboram no projecto. Convenientemente, Joy cita Jean Renoir: “Tout ce qui bouge sur un écran est du cinéma”.
As obras apresentadas comentam as transformações operadas na era da internet, que vão da modificação do tempo da leitura cinematográfica pela aceleração, congelamento/paragem ou contemplação, à alteração da situação de visionamento que vai da passividade à construção activa. Yves Bernard propõe assim uma visão da internet como uma “câmara global” em que se baseiam as novas perspectivas do real.
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