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\\ McLuhan Salon \\

February 15, 2008 · Leave a Comment

Marshall McLuhan Salon
Embaixada do Canadá

mcluhan

Este Salão revela a agradável estranheza das relações que se podem estabelecer entre representatividade política e reconhecimento do valor cultural como criação de uma identidade nacional. A escolha de McLuhan como representante do Canadá em Berlim não é nesse sentido desprovida de ingenuidade. A relação que se cria entre a Embaixada e o Transmediale é a partir deste momento uma assumida inevitabilidade e a primeira conferência inserida no programa paralelo “Mc Luhan Salon” é disto prova evidente. Procura-se que, todos os anos, seja dada uma conferência por alguém que, à semelhança de McLuhan, tenha vindo a reconstruir a Ordem através da interrogação transdisciplinar, ou como o próprio director do Transmediale refere alguém “out of the box”, em fuga à consensualidade e ao discurso instituicional, não através de estratégias de subsversão ou activismo, mas através das suas próprias “ordens”. A escolha de um professor universitário reveste-se nesse sentido, da devida premeditação, quando se discute amplamente o novo papel das estruturas académicas como motores de inovação.
Embora pequeno, este o “Salão McLuhan” é passagem obrigatória para todos os que acreditam ou investigam o legado McLuhaniano: filmes que documentam a vida e obra do autor (alguns com registos inéditos das suas palestras), dvd’s que compilam os seus dogmas, excertos da sua presença nos mais variados media (de sublinhar a súbita aparição em “Annie Hall” de Woody Allen), excertos de rádio, com algumas das suas intervenções são apenas alguns exemplos do que o visitante pode encontrar neste espaço.
No tempo que mediou a chegada ao espaço do Salão e o início da conferência, acedemos ao DVD “McLuhans’s Wake” (2002), com Laurie Anderson como narradora. Este documento, explica a relação inicial do autor à filosofia; ao tentar perceber as grandes leis que governam o Homem, McLuhan chega ao “Estudo dos Media” na sua ligação à comunicação, aos seus modelos formais e conceptuais. Com as “leis dos media”, McLuhan encontra uma ferramenta de organização do caos social e físico criado pelas novas tecnologias.
Um dos aspectos que se retem deste DVD, sublinha o estudo de McLuhan como um loop entre as ferramentas e os media como extensões do Homem e simultaneamente como traduções naturais da comunicação humana. Pela navegação, encontramos o mote “We shape our tools and therefore our tools shape us” que em si, tem também uma força conspiracional. A ligação sugerida ao Transmediale, parece encontrar um dos seus possíveis argumentos.

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Conferência
Alberto Pérez-Gómez

Professor universitário em diversas faculdades de arquitectura, Alberto Pérez-Gómez, acredita na disciplina como uma ferramenta ou motor de transformação e procura a especificidade do contributo de algumas formas artísticas como a arquitectura e o design, através da ligação da ética com a estética (aqui, forças interdependentes).
Embora muitas vezes se dirija àquela que é a sua matéria de eleição – a arquitectura – procura recorrentemente expandir os valores desta disciplina, às restantes práticas artísticas. Ao valorizar o imaginário poético do arquitecto (ou de qualquer outro agente criativo), estende a função da arquitectura não apenas à sua função estrutural económica, mas principalmente ao seu valor cultural.
Os aspectos essenciais da conferência, relacionam recorrentemente a beleza com a justiça, a poética com a ética, ao argumentar o voltar a acreditar no valor estético como função essencial das práticas artísticas ou criativas.
É este envolvimento da “forma bela” que reforça o reconhecimento contextual das práticas artísticas.
Reconhecer o Belo, é sempre uma tarefa difícil; recorrentemente negado, assumir a sua qualidade é hoje uma estranha provocação (parece ser um dos aspecto mais impopulares na construção dos projectos ou na sua possível argumentação); mas para Alberto Pérez-Gómez, o valor formal do Belo é um contributo específico das práticas artísticas. Mais do que a metodologia ou processo, o objecto é revelador do valor estético e assume-se como estratégia primeira de envolvimento.
Pode ser este aspecto de negação do Belo que explica a desproporção recorrente entre os artefactos novos media e os valores formais originados por estas; como se a consciência da tecnologia fosse inquestionável e o seu consequente retorno estético, problemático.
O acesso directo ao objecto (“não podemos parafrasear Rilke, temos que ler Rilke”, segundo as palavras do orador) é um aspecto essencial que revela a importância do momento de reconhecimento; como contra-campo, a arquitectura também deve oferecer um momento de desorientação. Para entendermos qualquer coisa, temos que primeiro encontrar a desorientação, como primeiro sentido ou vontade de envolvimento. O estímulo desta falta positiva, passa igualmente pelo retorno estético e a ligação à “metáfora” de Eros, uma constante no discurso de Pérez-Gómez. Este espaço ou esta falha vital são essenciais em qualquer experiência de tradução e as experiências artísticas não são excepção.
O sentido, não pode ser totalmente objectificado ou ligado a funções e formas: a criação de uma identidade restrita, fechada, faz com que o objecto ou sistema perca sentido.
As ligações a uma certa ética da forma, continuam a ser permeadas por conceitos filosóficos. Apresenta-nos o conceito de catarse como o momento em que o espectador se predispõe a construir sentido a partir do que vê, continuando a mesma lógica de reconhecimento da “falta positiva”, como estratégia de envolvimento. Mas não se espere desta aproximação à falha a devida inconsequência ou inconsciência nos processos criativos: a arquitectura que não se predispõe à construção de beleza e sentido é efémera, predispõem-se constrói apenas uma experiência momentânea.
A beleza é uma forma de partilha da experiência cultural, é um sentido “a priori”, uma experiência que produz catarse, o propósito da natureza mimetizado no artefacto.
O cepticismo que provém da redução da construção à lógica tem como contra-ponto, a adição da experiência como necessidade óbvia.
Devemos aprender a ter confiança na nossa percepção, na nossa vontade intuitiva de reconhecimento do Belo ou dos valores formais. O nosso envolvimento intuitivo com o Belo (o amor pela Beleza), é característica essencial nos meios de estímulo da experiência.
Pérez-Gómez, reforça a ligação de Eros com a imaginação – é a falta de imaginação que nos cria um vazio na construção; é a Imaginação que nos dá a faculdade de construção de histórias e de libertação, de partilhar a partir da linguagem dos “outros”. Esta é uma outra possível formulação da ética. São os Outros que decidem o destino e a construção de sentido último nas coisas.
Procurando uma leitura do contexto actual, reforça e idéia do nosso tempo ser ainda pautado pelo esquecimento da idéia de “voltar atrás”, que pode ser encarado como factor positivo na produção artística (por exemplo, a vontade da Renascença em voltar à Antiguidade e o modo como esse “voltar atrás” estimula a evolução); hoje, o sentimento persistente é de alteração da humanidade (é a diferença que traz a evolução), mesmo quando os novos media já são novos há muito tempo e quando muitas das discussões que se fazem hoje, são estranhas repetições de outras que já se fizeram antes; logo, a única diferença é uma percepção nova do Tempo e não a realidade desses mesmo Tempo.
Na obsessão pela ferramenta (“things are too flashy”, segundo as palavras do autor) perde-se esta noção da percepção e do valor estético. Estamos tão preocupados com a lógica que nos esquecemos da Forma Bela e do seu contributo essencial (dir-se-ìa até funcional) nos modelos de comunicação. É aqui, que se liga com evidência a estética e à ética, ao seu inevitável momento de aplicação funcional.
Sublinha-se por fim, a noção de responsabilidade e valorização da linguagem que falamos ou dos processos específicos de cada prática artística (“the ground for action”); ser responsáveis pelas nossas “palavras” (transpostas para projecto) como mais uma formulação da ética na prática artística.
É essencial, enquanto criadores, negociar as particularidades da produção, procurar a construção dessa consistência como um novo envolvimento político no trabalho projectual.
Alerta-nos para a responsabilidade de todos aqueles que constróem espaços de aparência e defende a idéia de expertise; a defesa da especialização como factor de responsabilização na produção e a urgência no assumir dessa responsabilidade, como outra versão da ética. Como bom orador, Alberto Pérez-Gómez, apresenta-nos por fim, o contra-campo da argumentação. Essa responsabilidade não implica rigidez, ou fixação nos processos; antes, deve ser atenta aos momentos imprevistos e ao reconhimento de que existem momentos em que perdemos o controlo (existe toda uma constelação de acontecimentos que nos escapa, são as últimas palavras desta conferência).

Categories: CONFERÊNCIAS · TRANSMEDIALE2008
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