Julien Maire
Julien Maire (fr/de), artiste, Berlin, Allemagne
http://julienmaire.ideenshop.net
O trabalho de Maire é ‘positivamente’ difícil de enquadrar, pois parece transcender as palavras que tendem a encerrá-lo em categorias. Muito já foi dito sobre a sua aproximação à reinvenção do cinema e questionamento dos dispositivos e processos da sua construção. As palavras que normalmente encontramos associadas ao seu trabalho vão desde a ‘aura mítica do mago’ ao ‘génio técnico’ patente nas suas diversas abordagens à reinvenção do cinema (em performances e instalações). O seu modo de criar novas formas de percepção da imagem, pela reconstrução dos mecanismos da visão, provoca simultaneamente a perplexidade e fascínio inerentes ao jogo que opera entre realidade e ilusão.
Maire começa por expor o seu ponto de partida como artista plástico que aspirava aos meios e matéria do cinema, procurando no entanto preservar a manualidade e a materialidade técnica na construção da imagem. Parte então das máquinas e processos de construção da imagem para ‘criar cinema’ que não se submete à lógica da imagem mas à da sua construção.
Maire afirma que no seu trabalho a interacção “se faz com o cinema e não com o público”. O seu cinema “não é ficção é fricção”, a sua aproximação é estrutural e concreta, e mais do que ‘fazer filmes’ faz o próprio ‘modo de fazer’ o cinema.
Começa por usar mecanismos de ‘baixo custo’ para a produção de imagens ‘perfeitas’, completamente ampliáveis, opondo a baixa definição e fragilidade dos processos à criação de uma ilusão perfeita. Em “Pieces de monnaie” (2004) ou “Double Face” (1999/2000) [video] tenta trazer a ilusão do cinema para a realidade. Na primeira construindo modelos de moedas para criar a ilusão de perspectiva numa “frottage impossível”, e na segunda controlando meticulosamente o comportamento ‘real’ de uma moeda em aparente ‘câmara lenta’. Tudo “funciona tal como se vê”, num jogo com o tempo, a gravidade e o velho conflito entre tempo e dinheiro.
Igualmente, na performance/projecção “Demi-pas“(2002), não há truques de ilusão. O que se vê corresponde ao que acontece, mas segundo uma inversão do processo do cinema — “criando o cinema no projector”. Cada imagem torna-se numa ‘máquina de imagens’ num filme que ’se anima a sí próprio’ - é a própria matéria do filme que se o anima (com uma sequência de slides mecânicos).
fotos ©julien maire (ver scene cartridges) + (video c/ som) (video s/ som)
Na instalação “low Resolution cinema” (2005) Maire explora outra forma de construir a imagem fisicamente no projector usando dois LCDs de baixa resolução, monocromáticos, fisicamente cortados para dividir a imagem. Mais uma vez “é a máquina que constrói o filme”.
Usa a baixa resolução para criar uma compressão da realidade, uma representação abstracta da cidade de Berlim. Esta forma de abstracção rejeita a prática “ilusionista” da representação da realidade, impossibilitando a verdadeira representação da perspectiva. Já na performance “Digit” (2006) aborda outra forma de construção, a escrita. Uma forma de escrita automática, que flui directamente do pensamento, evocativa do surrealismo e das técnicas de cut-up. É uma escrita de texto e imagem em simultâneo, que se pode considerar como um “extracto de cinema”, ou outra forma de olhar as ‘máquinas’ que constroem o cinema.























