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Bernard Stiegler \\ Espacialização do tempo do cinema

December 2, 2008 · Leave a Comment

Bernard Stiegler
Espacialização do tempo do cinema


Spatialising cinema time
Bernard Stiegler (fr), philosophe; directeur du département du développement culturel et co-directeur de l’IRI, Centre Georges Pompidou, Paris, France
http://www.iri.centrepompidou.fr/

Stiegler começa por considerar que a interactividade é ubiqua, os sistemas interactivos proliferam na vida quotidiana, logo a interactividade está “mal nomeada” pois falamos antes de uma acção ou interacção, uma possibilidade dada por um sistema técnico ao serviço de um destinatário. Propõe que a única forma válida de consideração da interactividade na arte será colocar a questão do ponto de vista da recepção, i.e. do que a interactividade produz na relação do espectador com a obra.

A interactividade tem então que ser equacionada segundo o seu contributo para a experiência estética do “destinatário da obra”.

Stiegler inicia assim uma análise da relação entre os momentos constituintes do julgamento estético do destinatário -  o momento de síntese e o momento de análise. Estes dois momentos encontram-se na figura do “amador” que é revalorizada como chave do entendimento da experiência estética. O amador é visto segundo duas vertentes: a do “artista amador” e a do “amador de arte” (como crítico ou coleccionador).

Segundo Stiegler a obra interactiva produz uma fusão destas duas vertentes associando-as: o amador torna-se artista, participa na construção da obra, participa numa crítica colaborativa, e será essa a importância da acção ou interacção na experiência estética. Logo as possibilidades abertas pela tecnologia digital proporcionam uma “reinvenção” do cinema, sobretudo ao nível da possibilidade de uma “acção” sobre a obra por parte do espectador.

Na experiência estética funde-se então a emoção com a racionalização – aproximam-se os dois momentos (a síntese a análise). O momento da síntese consiste no momento da recepção da obra como um todo em que se produz um feito de “surpreendimento” — é o momento da emoção na relação com a obra. O segundo momento é o da análise, em que se desconstrói a emoção que a obra produz e se passa à interpretação. Passa-se a decompor a obra, e procede-se à sua “reconstrução mental”.

É na óptica destes dois momentos da experiência estética que é importante considerar o papel da interactividade: na reunião de síntese e análise.

É neste perspectiva que defende o projecto desenvolvido sob a sua direcção “lignes de temps [apresentação e demo]” no IRI do CGPompidou que consite num software de anotação de vídeo para a análise de fimes. O projecto propõe-se como ferramenta para a análise da construção de um filme, mais precisamente, propõe a decomposição do filme em planos e análise da monagem, permintindo essa desconstrução analítica.

Segundo Stiegler a aspiração do verdadeiro amador é a passagem ao acto. Tal como como os “amadores do cinema” na “nouvelle vague” o fizeram — por amor ao cinema passam da análise e crítica à realização de um cinema “crítico”, “amador”, “low tech”, baixos recursos, etc.
Para ilustrar a questão do amador, recorre então ao exemplo do filme “Close Up” de Abas Kiarostami (1990) como metáfora da figura do amador e da sua passagem ao acto. Neste caso, o amador “mimetiza” o papel do criador, ficciona a passagem ao acto num cinema “mental” que é uma forma de participação “ficcionada” que o cinema detém.
No entanto essa ficção pode efectivar-se, e é aí que reside a importância da interacção—na possibilidade de passagem ao acto—a uma acção que não mimetiza o acto do criador mas constitui uma outra forma de participação e intervenção no acto criativo (como no exemplo do amador de cinema que passa a participar no filme não como realizador mas como actor – é incluído na obra).

A importância da interacção na experiência estética localiza-se então na possibilidade de “agir” ou participar nessa construção do obra. Funde os momentos de síntese e análise remetendo para a génese do efeito emocional, permitindo ao amador assumir-se como “spect-acteur” que simultaneamente recebe e constrói a própria experiência estética.
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