CLUB TRANSMEDIALE 08
O “club transmediale” desenrola-se paralelamente ao “transmediale”, neste ano ano entre 25 de Janeiro e 2 de Fevereiro. O programa reúne uma grande diversidade de abordagens à criação musical, sonora e audiovisual contemporânea (electrónica, digital e experimental) e pretende proporcionar uma visão da produção internacional, bem como estimular a reflexão sobre os desenvolvimentos técnicos e criativos através de workshops e painéis de discussão, dando uma visão da diversidade de media, formatos e aproximações artísticas à cultura musical.
TEMA
O tema deste ano “unpredictable” investiga conceitos artísticos que implicam surpresa ou imprevisibilidade de acidentes, erros e coincidências como meios para alterar a dinâmica do processo criativo e descobrir novas formas estéticas.
O ponto de contacto com a conspiração está nesta visão do jogo com o imprevisível como método de desorientação consciente, para provocar uma independência e imunidade contra o crescente desejo de segurança e controlo das organizações públicas e comerciais.
O evento foi recheados de apresentações, concertos e live-acts condizentes com o enunciado de uma diversidade de estratégias e estilos. O programa percorre, desde o incontornável pioneiro Pierre Henry [FR] que durante os anos 50 juntamente com Pierre Schaeffer [FR] dá forma a uma abordagem da “musique concrète”, à passagem pela estética ‘glitch’ digital, ou por paisagens acústicas que incitam à contemplação ou lógicas de exploração acústica do espaço.
Da primeira semana lamentamos ter perdido a improvisação electroacústica de Henry, e que apresentou trabalhos de 2003 e 2007, ou o simpósio “tuned city”.
Este simpósio sobre especulações entre som e espaço na perspectiva de uma “cidade sintonizada”, contou com a presença de Max Neuhaus [us] figura pioneira da arte sonora ou Brandon Labelle [us/dk] com o seu discurso crítico sobre som e espaço. Explorou-se o potencial de um trabalho artístico sobre contextos espaciais específicos, percorrendo uma estética da atmosfera sonora ou a relação entre acústica e arquitectura.
Na componente Generatorx2.0 organizada por Marius Watz, perdemos a Keynote que foi posteriormente “compensada” por outras manifestações da mesma iniciativa.
A qualidade do conjunto de performances audiovisuais da noite GeneratorX 2.0 como os resultados do workshop em fabricação digital que tivemos oportunidade de assistir posteriormente fazem com que esta inciativa se destaque no corpo do festival CTM.
WORKSHOPS
O programa do CTM reunia ainda uma série de workshops xxxxx, sob o tema [in] tolerance, organizados por Martin Howse [UK] e Derek Holzer[NL/US], orientados para produção e construção de artefactos audiovisuais electrónicos (sendo código ou hardware) na procura de exploração do software livre, ferramentas GNU e componentes electrónicos. O mote é uma sugestiva citação de Kittler apelando à imprevisibilidade e erro em proporção directa à informação, como os temas do ruído, “one bit music”, ‘Theremin digital’, ‘caos em nodos e redes’ ou ‘naturezas bastardas’ o sugerem.
Os eventos do CTM distribuíram-se por vários locais, na sua grande maioria, os live acts, concertos, performances audiovisuais ou filmes tinham lugar nos espaços do Club Maria. Embora as performances não nos tenham surpreendido pela qualidade ou imprevisibilidade, não desiludiram pela diversidade e riqueza das abordagens.
O tema da improvisação electrónica e electroacústica foi abordado em “the land unknown” destacando-se as performances de Pure [AT] ou Robert PIottrowicz [PL]. Incidiram essencialmente numa exploração do ruído electroacústico, jogando com sistemas de síntese de som para gerar ruídos improváveis, num exercício de controlo instável, com consequências sonoras por vezes inesperadas.
Robert PIottrowicz
A qualidade desta abordagem ao ruído não encontrou porém equivalente no “Sonic Wargame”, de Xavier Van Wersh [NL]. Embora se enunciasse como uma competição (simultaneamente colaborativa e submissa) entre participantes na criação de um ‘organismo quadrifónico de som’, este jogo ‘agressivo’ acabou por sobrepor a componente lúdica à qualidade da matéria sonora em jogo.
sonic-wargame.net
O lineup “unsusual configurations” consegue fazer juz ao tema com o contributo de Vitalic [FR] ou dos “mouse on mars” [DE] que cumpriram com a inteligência e humor que os caracterizam e confirmam os cerca de 12 anos de exploração de uma electrónica enérgica e desconstrutiva, com direcções imprevisíveis e configurações verdadeiramente invulgares.


