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Stuart Bailey \\ a migração dos signos

April 25, 2009 · Comments Off

A migração dos signos
(ou como todas as partes constroem um todo em partes)

conferência Stuart Bailey com Mário Moura. FBAUP. 23ABR’09

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O mote para a conferência parecia ser simples—como expandir a legenda de “Extended Caption“, a exposição de Stuart Bailey na Culturgest do Porto, ainda um pouco mais e num outro modelo. Os ingredientes dispunham-se à volta da mesa—dois bons conversadores, um bom tema de conversa.
E assim se adensou a expectativa sobre esta conferência. O resultado foi um auditório cheio numa bela tarde de Primavera, no Porto, pronto a “ler” os três capítulos da apresentação: contexto, objecto e imagens ausentes de “Extended Caption (DDDG)”. A conferência transformou-se, assim, num detalhado preâmbulo à exposição presente na Culturgest do Porto—uma chave determinante para a “leitura” do seu programa.
A 7ª versão desta exposição tem como princípio a recolecção de um conjunto de imagens cuja “única relação objectiva consiste em terem aparecido nas páginas da Dot Dot Dot* (revista editada por Stuart Bailey e Peter Bilak desde 2000 e por Dexter Sinister desde 2007). Como objectivo, a subversão da hierarquia comum entre texto e a imagem. A “tentativa”* configura-se em dois modelos—uma parede de imagens que nos coloca perante a hipótese da leitura do todo ou das partes; um livro que devolve as imagens ao seu ecossistema original (este último em colaboração com os ROMA Publications). Entramos, deste modo, no “circuito-fechado” que tanto parece agradar Bailey—uma publicação impressa recriada numa parede de uma exposição que, por fim, volta a ser “matéria impressa”.

conferencia Stuart Bailey Porto

O modelo da conferência seguiu os princípios que identificam os textos de Bailey, revelando a consistência do seu “modo de pensamento”, uma rede de relações intertextuais em torno de um conjunto de signos e significantes. A vontade de construir narrativas a partir dos “entre-espaços” dos objectos (o território preferencial em que habita a obra do autor) revela-nos o fascínio pela procura das pistas, sem que se tenha consciência imediata de um objectivo final. Partindo de um signo (visual), constrói-se uma narrativa de reconstituição (ou de ficção) que nos leva a outro signo e assim sucessivamente. A imagem parece ser o resultado inesperado de uma longa “tradição oral” —um facto que nos leva a outro facto, uma história que se conta, um ponto que se acrescenta…

É assim que Bailey desconstrói a superfície da imagem e a dota de um sentido profundo, complexo, fruto de um conjunto paradoxal de pré-determinações, efabulações, anedotas e acasos.
Através da revisão do “ciclo de vida” das imagens, Bailey assume-se como agente de recapitulação ou recolecção dos seus sentidos, sedimentados pelo tempo; nesse processo, assume-se tanto a revelação dos factos como a sua distorção. “Salvam-se” as imagens para que estas adquiram um sentido distinto da sua origem. Como se deste modo nos lembrasse que todas as imagens têm uma vida dupla (uma primeira, fruto da sua função original, e outra da sua leitura).
Na revisitação dos factos, “re-enactment” ou recriação da imagem, reconstroem-se a(s) estória(s) que, ao serem convocadas por Bailey, sustentam a credibilidade da narrativa. Através do “olhar”, o autor transforma o signo imediatamente em obra, como se o tempo que dispensa na “leitura” da imagem lhe desse a legitimidade para a criação e, ao espectador, a “chave” para a leitura e fruição da proposta.
Mas é precisamente aqui que reside a subtil abordagem de Bailey; saímos da conferência com uma noção profunda da proveniência das partes (a geneologia exacta de cada imagem utilizada); devolve-se ao espectador o espaço subjectivo da leitura do todo (a relação não-linear das imagens na parede da exposição).

A lição em tangente parece encontrar-se nas questões implícitas que a exposição convoca: quanto tempo perdemos na “leitura” de uma imagem? Qual o tempo de ressonância do sentido que essa imagem adquire em nós? E será possível isolar esse sentido, quando imediatamente o confrontamos com um conjunto concorrencial de outras imagens?
Como arquivo subjectivo e recapitulação dos legados “Mnemosyne-Atlas” de Aby Warburg ou de “Atlas” de Gerhard Richter, “Extended Caption” testa os modos de apropriação e reutilização da imagem num universo confinado à publicação Dot Dot Dot.
Nos limites desta obsessiva “investigação” constrói-se uma última dúvida: qual o método preferencial de Bailey? A arqueologia ou a ficção?

* do texto de apresentação da exposição/Culturgest Porto. Abril 2009

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IMGS Nuno Coelho + Rafael Lourenço

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\\ Conferência \ The ‘Real’ Conspiracy” \\

February 15, 2008 · Leave a Comment

“The ‘Real’ Conspiracy”// Timothy Druckrey [us]: _ 18:30
Introdução: Andreas Broeckmann [de]

“Where is reality? Can you tell me?”
Heinz von Foerster, in “Das Netz: The Unabomber, LSD and the Internet”

“With Turing machines that think the world, with Lacan’s language that thinks the ‘real’, with Barthes’, language that signifies the world, with the optical apparatus’ images that witness the ‘real’, with the gramophone – the sound of the ‘real’, and with the computer pictures that simulate the ‘real’, the legacy of modernity’s obsession with representation and its apparatuses resides between illusion and alibi. As Zizek reminds us, the issue is not between reality and simulation, but within the reality of illusion itself.”
Timothy Druckrey, do programa TM’08

Aguardada com grande expectativa, esta conferência começa com a apresentação de Timothy Druckrey por Andreas Broeckmann, onde se revela a cumplicidade entre ambos os autores (na t-shirt de Broeckmann, “reality addict” aparece em clara consonância temática).

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Andreas Broeckmann

A investigação de Druckrey aponta como possível constante, uma aproximação à alteração e apropriação dos valores ideológicos pelas tecnologias (ou uma possível filosofia política para a tecnologia).
Broeckmann apresenta Druckrey como um optimista crítico, um arqueólogo dos media em constante procura das linhas não consensuais da história; expõe a sua principal ferramenta – “a citação como arma” – que acabará por pontuar alguns os momentos mais memoráveis desta conferência.
Como “adenda reminder” e primeiro parentesis ao guião da conferência, Druckrey apresenta o trailler do filme “Strange Culture”, de Lynn Hershman Leeson, onde se relatam os estranhos acontecimentos ocorridos ao artista e professor Steve Kurtz que vão desde a morte da sua mulher por ataque cardíaco, ao inevitável telefonema para o 911, a suspeição dos polícias então chamados e a intervenção do FBI, até à acusação de “bioterrorismo”; parece que também aqui, reside uma pista para o entendimento da conferência – este é um caso real de como a representação criativa acaba por trair a realidade do seu próprio autor, confundindo-se tragicamente com esta.
Tendo como argumento principal a obsessão pela representação que hoje se transpõe para aquilo a que Druckrey chama a “realidade da ilusão” e a ideia-chave de que a representação não persupõe imediatamente uma perda de realidade, a conferência “The Real Conspiracy” começa por utilizar a “arma da citação”, criando um primeiro cenário para o entendimento desta problemática (afinal, a citação, também é em si, uma representação).
O vídeo com a entrevista a Heinz von Foerster (do filme “Das Netz: The Unabomber, LSD and the Internet”) surge como um primeiro tónico de provocação – “onde está a realidade? Consegue responder-me?”, “o mais revelante é quão interessante é a história que se conta para explicar a origem do universo.” Estas afirmações parecem ser “palavras de ordem” para o entendimento da conferência de Druckrey: a representação ou a construção perceptiva da realidade, o sinal, a imagem, como as reais estratégias da conspiração.

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Heinz von Foerster

Com Warren McCulloch, Norbert Wiener, John von Neumann, e outros, Heinz von Foerster foi um dos arquitectos da cibernética, aliando as suas competências na física e ciências da computação ao sentido crítico da filosofia. Desenvolveu uma segunda ordem para a cibernética, que focava os sistemas auto-referenciáveis e a importância dos seus comportamentos internos na explicação de fenómenos complexos.
Exibindo uma lógica evidente entre o formato da apresentação (a leitura do seu próprio texto) e o tema da conferência (apetece dizer que a realidade de uma conferencia, é a sua representação em texto) continua um autêntico bombardeamento de citações: de Zizek retira “the things exist by mistake” ou “creation is just a cosmic imbalance”, de “Crash” de J. G. Ballard, “a ficção já existe, a tarefa do autor é inventar a realidade”, das leis do Marketing “never do anything for the first time”.
Ficam alguns fragmentos das ideias-chave do argumento desta conferência: a conspiração está afinal no sinal, na imagem; a realidade como o que está entre sinal e ruído; a inexistência de um mundo para além da representação (“where do pictures go when they are not on the screen?”); a fatalidade da privatização da realidade, dominada pelos media, um possível retorno à utopia da individualização da realidade, quando conferimos ferramentas de representação e representatividade a partir das novas tecnologias da Rede e simultaneamente a inevitável “conspiração do esquecimento” traduzida a partir da acumulação dos referentes (aquilo a que o autor também chama a “conspiração da data-base” ou as narrativas do banal); o “re-enactement” como um dos modelos mais interessantes de representação da representação (quando se considera, sob a perspectiva de Heinz von Foerster, a História como uma construção ou narrativa da realidade passada) ou como só as insistências ou repetições da História nos permitem o nosso acesso a experiências do passado; o triunfo do efeito especial ou da “esfera do gadget”; a “conspiração da testemunha”, que assume a representação do que supostamente viu (devolve-nos então o “retrato-robot” da realidade e confere com esta representação a autentacidade dos acontecimentos); o revivalismo da Obra Total, como não mais do que uma ligação entre o ego e a hiperactividade do consumo (“Get back to normal. Go shopping!”); o legado da virtualização do mundo como uma espécie de “autópsia antecipada da realidade”; a realidade como uma variável e a imagem como uma constante.
Links:
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Timothy Druckrey
http://subsol.c3.hu/subsol_2/contributors3/druckreybio.html
http://users.rcn.com/druckrey/

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Andreas Broeckmann
http://framework.v2.nl/archive/archive/node/actor/.xslt/nodenr-65453

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Steve Kurtz “Strange Culture”
http://www.strangeculture.net/

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Heinz von Foerster
http://www.univie.ac.at/constructivism/HvF.htm

“The net: The Unabomber, LSD and the Internet”
Lutz Dammbeck

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\\ Conferência \ Chilean Network Experiment \\

February 15, 2008 · Leave a Comment

Session 1: The Chilean Network Experiment: From Poetics To Systemics _ 30/1_14:00
Moderador: Eden Medina [us]
Participantes: Angel Parra [fr], Raul Espejo [uk], Alejandra Aravena [cl], Carlos Fernando Flores [cl]
Respondente: Alejandra Perez Nuñez [cl]

Esta conferência enquadra-se num contexto de investigação da origem das estruturas contemporâneas de comunicação em Rede. Durante o início da década de 70 e entre uma suposta poética reconhecida do Governo de Salvador Allende no seu caminho para o socialismo, o ‘Chilean Network Experiment’ sublinha as relações entre tecnologia, política e cultura.
A conferência começa com um primeiro enquadramento do CyberSyn, a primeira rede de comunicação criada para ligar Companhias e Estado. Defendia que a manutenção do poder, se conseguia a partir da construção de confiança e diálogo entre os vários níveis hierárquicos e não a partir de sistemas de coerção ou de comunicação codificada.
Como sistema de manutenção e distribuição da informação em tempo(quase)-real, o projecto CyberSyn, torna-se pioneiro na aplicação de um modelo cibernético em contextos sócio-económicos e baseava-se na convergência da ciência, tecnologia, política e cibernética.
O sistema económico do Governo, depois de anexar e nacionalizar inúmeras empresas, requeria a criação de um sistema de gestão, dinâmico e flexível.
Em clara oposição com a ARPANET, onde encontramos o Departamento de Defesa dos E.U.A. envolvido na construção de uma rede de comunicação descentralizada (típica do período de “Guerra Fria” e das teorias massivas de secretismo do Estado), o desenvolvimento do CyberSyn, incluía considerações éticas, fundadas numa cultura de participação, que definiam a experiência socialista no Chile e a participação física e psicológica do indivíduo na Rede. A enfâse era colocada na ligação entre indivídos, priveligiando o entendimento da Rede como sistema de comunicação social, enquanto que o sistema ArpaNET, priveligiava a ligação entre máquinas.
Na dicotomia acção vs. data (CyberSin vs. ARPANET), reside a principal diferença conceptual entre os dois sistemas. A data distribuída não era o vector essencial de manutenção do sistema em CyberSyn, mas, a idéia de que o acesso à de informação potenciava a acção. Curiosamente, o dia 11 de Setembro de 1973 marcaria o confronto último destas duas filosofias políticas e das suas estruturas de Rede subsidiárias.
Estruturalmente, o CyberSyn era composto pela Cybernet (rede de telex para apoiar companhias e instituições do Estado) e pelo Cyberstride (software do sistema); a sua função passava pelo processamento da informação enviada pelas companhias, traduzindo esta em variáveis pré-definidas, num formato facilmente inteligível.

Presente no painél de conferencistas, o senador Fernando Torres, contextualizou o enquadramento político do projecto, bem como o papel pessoal desempenhado na consolidação do mesmo.
Em 1970, Fernando Flores, Director geral da CORFO (Corporação de Produção e Desenvolvimento do Chile), é responsável pela complexa gestão e coordenação entre as companhias nacionais e o estado.
Influenciado por Madurama, Varela e Habermas, enquanto estudante de engenharia, conhecia as teorias e soluções propostas por Stafford Beer. Com Raúl Espejo, convida Beer para implementar um sistema de comunicação e manutenção do contrato social assumido pelo Governo.
Ao enquadrar o sistema CyberSyn, no contexto político do Chile da década de 70, Torres termina a intervenção, argumentando que a Internet, deve encontrar novos modelos de inspiração políticos, reforçando a importância e potencial da comunicação intra-culturas.

Raoul Espejo, procura na sua intervenção uma reconstrução holística da natureza de CyberSyn, através da revisão das vantagens e falhas deste sistema.
Assume o motor metafórico de construção de CyberSyn, na “brecha de complexidade” que leva sempre à necessidade do engenho, da invenção e da criatividade, como valores essenciais que nos permitem antecipar os problemas (como a gestão dos orgãos e unidades sociais e do Estado ou o terrorismo).

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Revela um profundo conhecimento de algumas das teorias da complexidade, como motores conceptuais de construção deste sistema: a “Lei do requisito” de Ashby (1964), nomeadamente o “requisito de variedade” que nos diz que só a complexidade absorve a complexidade (construindo agentes de regulação); ou as teorias da informação de Claude Shannon, que defende uma idéia de digitalização primária (todo o mundo analógico pode ser transformado em informação digital).
O projecto CyberSyn procurava ser sensível aos níveis de equilíbrio dos sistemas de comunicação: entre os limites do sistema de controlo (quando se amplificam em demasia as estratégias de observação) ou de simples observação (onde a observação passiva nega a acção). Estes ainda são os limites frágeis dos sistemas de comunicação em Rede: se por um lado se exige acção e resposta, devem construir-se sistemas de activação aos limites de vigilância e observação. Para tal, devem estar sempre presentes modelos de auto-regulação das hierarquias e capacidade dos canais de comunicação que garantam o equilíbrio entre autonomia e coerção.
CyberSyn promovia uma autonomia responsável, ao facilitar acções locais e ao desenvolver um sistema de comunicação baseados na “confiança responsável”, rompendo as relações hierárquicas tradicionais e dotando o sistema de um significado construtivo dado às práticas da informação em tempo real. Assim, CyberSyn, materializava o sistema de comunicação em Rede como reflexo das suas implicações sociais.
Raoul Espejo, conclui a sua comunicação admitindo que CyberSyn construíu um modelo de comunicação viável, mas não conseguiu promover as efectivas práticas capazes de reconstruir a natureza social, provando quão complexa pode ser a relação entre os mundos físicos e virtuais.

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A pontuar o final da conferência, é-nos apresentada uma imagem da sala de controlo de CyberSyn; para além do imediato fascínio que uma sala típica da década de 70 provoca, Raoul Espejo deixa-nos com uma possível reflexão – como transformar, hoje, salas ou espaços de controlo em modelos de participação da cidadania activa. À Internet foi retirado o espaço e a hipótese de com ela construir imaginários pautados pelos Estilos da História, mas ainda assim resta a possibilidade de encontro de um modelo ou instrumento complexos de participação, como procuraram aferir algumas das conferências do Transmediale’08.

Links:
Project_CyberSyn
wikipedia Projet_CyberSyn
guardian.sciencenews.chile

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\\ McLuhan Salon \\

February 15, 2008 · Leave a Comment

Marshall McLuhan Salon
Embaixada do Canadá

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Este Salão revela a agradável estranheza das relações que se podem estabelecer entre representatividade política e reconhecimento do valor cultural como criação de uma identidade nacional. A escolha de McLuhan como representante do Canadá em Berlim não é nesse sentido desprovida de ingenuidade. A relação que se cria entre a Embaixada e o Transmediale é a partir deste momento uma assumida inevitabilidade e a primeira conferência inserida no programa paralelo “Mc Luhan Salon” é disto prova evidente. Procura-se que, todos os anos, seja dada uma conferência por alguém que, à semelhança de McLuhan, tenha vindo a reconstruir a Ordem através da interrogação transdisciplinar, ou como o próprio director do Transmediale refere alguém “out of the box”, em fuga à consensualidade e ao discurso instituicional, não através de estratégias de subsversão ou activismo, mas através das suas próprias “ordens”. A escolha de um professor universitário reveste-se nesse sentido, da devida premeditação, quando se discute amplamente o novo papel das estruturas académicas como motores de inovação.
Embora pequeno, este o “Salão McLuhan” é passagem obrigatória para todos os que acreditam ou investigam o legado McLuhaniano: filmes que documentam a vida e obra do autor (alguns com registos inéditos das suas palestras), dvd’s que compilam os seus dogmas, excertos da sua presença nos mais variados media (de sublinhar a súbita aparição em “Annie Hall” de Woody Allen), excertos de rádio, com algumas das suas intervenções são apenas alguns exemplos do que o visitante pode encontrar neste espaço.
No tempo que mediou a chegada ao espaço do Salão e o início da conferência, acedemos ao DVD “McLuhans’s Wake” (2002), com Laurie Anderson como narradora. Este documento, explica a relação inicial do autor à filosofia; ao tentar perceber as grandes leis que governam o Homem, McLuhan chega ao “Estudo dos Media” na sua ligação à comunicação, aos seus modelos formais e conceptuais. Com as “leis dos media”, McLuhan encontra uma ferramenta de organização do caos social e físico criado pelas novas tecnologias.
Um dos aspectos que se retem deste DVD, sublinha o estudo de McLuhan como um loop entre as ferramentas e os media como extensões do Homem e simultaneamente como traduções naturais da comunicação humana. Pela navegação, encontramos o mote “We shape our tools and therefore our tools shape us” que em si, tem também uma força conspiracional. A ligação sugerida ao Transmediale, parece encontrar um dos seus possíveis argumentos.

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Conferência
Alberto Pérez-Gómez

Professor universitário em diversas faculdades de arquitectura, Alberto Pérez-Gómez, acredita na disciplina como uma ferramenta ou motor de transformação e procura a especificidade do contributo de algumas formas artísticas como a arquitectura e o design, através da ligação da ética com a estética (aqui, forças interdependentes).
Embora muitas vezes se dirija àquela que é a sua matéria de eleição – a arquitectura – procura recorrentemente expandir os valores desta disciplina, às restantes práticas artísticas. Ao valorizar o imaginário poético do arquitecto (ou de qualquer outro agente criativo), estende a função da arquitectura não apenas à sua função estrutural económica, mas principalmente ao seu valor cultural.
Os aspectos essenciais da conferência, relacionam recorrentemente a beleza com a justiça, a poética com a ética, ao argumentar o voltar a acreditar no valor estético como função essencial das práticas artísticas ou criativas.
É este envolvimento da “forma bela” que reforça o reconhecimento contextual das práticas artísticas.
Reconhecer o Belo, é sempre uma tarefa difícil; recorrentemente negado, assumir a sua qualidade é hoje uma estranha provocação (parece ser um dos aspecto mais impopulares na construção dos projectos ou na sua possível argumentação); mas para Alberto Pérez-Gómez, o valor formal do Belo é um contributo específico das práticas artísticas. Mais do que a metodologia ou processo, o objecto é revelador do valor estético e assume-se como estratégia primeira de envolvimento.
Pode ser este aspecto de negação do Belo que explica a desproporção recorrente entre os artefactos novos media e os valores formais originados por estas; como se a consciência da tecnologia fosse inquestionável e o seu consequente retorno estético, problemático.
O acesso directo ao objecto (“não podemos parafrasear Rilke, temos que ler Rilke”, segundo as palavras do orador) é um aspecto essencial que revela a importância do momento de reconhecimento; como contra-campo, a arquitectura também deve oferecer um momento de desorientação. Para entendermos qualquer coisa, temos que primeiro encontrar a desorientação, como primeiro sentido ou vontade de envolvimento. O estímulo desta falta positiva, passa igualmente pelo retorno estético e a ligação à “metáfora” de Eros, uma constante no discurso de Pérez-Gómez. Este espaço ou esta falha vital são essenciais em qualquer experiência de tradução e as experiências artísticas não são excepção.
O sentido, não pode ser totalmente objectificado ou ligado a funções e formas: a criação de uma identidade restrita, fechada, faz com que o objecto ou sistema perca sentido.
As ligações a uma certa ética da forma, continuam a ser permeadas por conceitos filosóficos. Apresenta-nos o conceito de catarse como o momento em que o espectador se predispõe a construir sentido a partir do que vê, continuando a mesma lógica de reconhecimento da “falta positiva”, como estratégia de envolvimento. Mas não se espere desta aproximação à falha a devida inconsequência ou inconsciência nos processos criativos: a arquitectura que não se predispõe à construção de beleza e sentido é efémera, predispõem-se constrói apenas uma experiência momentânea.
A beleza é uma forma de partilha da experiência cultural, é um sentido “a priori”, uma experiência que produz catarse, o propósito da natureza mimetizado no artefacto.
O cepticismo que provém da redução da construção à lógica tem como contra-ponto, a adição da experiência como necessidade óbvia.
Devemos aprender a ter confiança na nossa percepção, na nossa vontade intuitiva de reconhecimento do Belo ou dos valores formais. O nosso envolvimento intuitivo com o Belo (o amor pela Beleza), é característica essencial nos meios de estímulo da experiência.
Pérez-Gómez, reforça a ligação de Eros com a imaginação – é a falta de imaginação que nos cria um vazio na construção; é a Imaginação que nos dá a faculdade de construção de histórias e de libertação, de partilhar a partir da linguagem dos “outros”. Esta é uma outra possível formulação da ética. São os Outros que decidem o destino e a construção de sentido último nas coisas.
Procurando uma leitura do contexto actual, reforça e idéia do nosso tempo ser ainda pautado pelo esquecimento da idéia de “voltar atrás”, que pode ser encarado como factor positivo na produção artística (por exemplo, a vontade da Renascença em voltar à Antiguidade e o modo como esse “voltar atrás” estimula a evolução); hoje, o sentimento persistente é de alteração da humanidade (é a diferença que traz a evolução), mesmo quando os novos media já são novos há muito tempo e quando muitas das discussões que se fazem hoje, são estranhas repetições de outras que já se fizeram antes; logo, a única diferença é uma percepção nova do Tempo e não a realidade desses mesmo Tempo.
Na obsessão pela ferramenta (“things are too flashy”, segundo as palavras do autor) perde-se esta noção da percepção e do valor estético. Estamos tão preocupados com a lógica que nos esquecemos da Forma Bela e do seu contributo essencial (dir-se-ìa até funcional) nos modelos de comunicação. É aqui, que se liga com evidência a estética e à ética, ao seu inevitável momento de aplicação funcional.
Sublinha-se por fim, a noção de responsabilidade e valorização da linguagem que falamos ou dos processos específicos de cada prática artística (“the ground for action”); ser responsáveis pelas nossas “palavras” (transpostas para projecto) como mais uma formulação da ética na prática artística.
É essencial, enquanto criadores, negociar as particularidades da produção, procurar a construção dessa consistência como um novo envolvimento político no trabalho projectual.
Alerta-nos para a responsabilidade de todos aqueles que constróem espaços de aparência e defende a idéia de expertise; a defesa da especialização como factor de responsabilização na produção e a urgência no assumir dessa responsabilidade, como outra versão da ética. Como bom orador, Alberto Pérez-Gómez, apresenta-nos por fim, o contra-campo da argumentação. Essa responsabilidade não implica rigidez, ou fixação nos processos; antes, deve ser atenta aos momentos imprevistos e ao reconhimento de que existem momentos em que perdemos o controlo (existe toda uma constelação de acontecimentos que nos escapa, são as últimas palavras desta conferência).

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