FUTURITY NOW!
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O tema desta edição do festival dedicado às artes e culturas digitais, Transmediale, parte de uma citação de H.G.Wells e propõem considerar a ‘futuridade’ como dimensão em que nos encontramos já imersos: “FUTURITY NOW!” é o futuro presente, como objecto de projecção cultural, como projecto criativo.
Tendo 2010 como ano em que se projectam as imagens passadas do futuro, e reflectindo sobre a ubiquidade das práticas digitais e media sociais intrínsecos ao código cultural actual considera-se que as visões e concepções do futuro se encontram em crise. Quando o “futuro já não é o que era” que papel tem a evolução da internet, a conectividade global, a cultura ‘open source’ e as estratégias sustentáveis em formar novas configurações do futuro.
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No dia 2 de Fevereiro o festival arrancou simbolicamente com a instalação de Yvette Mattern, “From One to Many”, um feixe de raios laser que ligaram a “Casa das Culturas do Mundo” e a Alexanderplatz, os ‘centros’ simbólicos do festival e de Berlim.

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Com o programa de conferências, performances, filmes e exposições, lançou-se uma reflexão conjunta entre artistas, designers, curadores, cientistas e visionários, para colocar a ‘futuridade’, no ‘agora’ e inverter a equação: mais do que considerar o que nos reserva o futuro, considerar como o estamos a modelar.
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Este mote reflecte-se nos prémios atribuídos no festival, que valorizaram projectos que evidenciam o potencial social da conectividade das redes digitais, nomeadamente a sua dimensão colaborativa e participativa. Em primeiro lugar “Buscando al Sr. Goodbar (2009)” de Michelle Teran (CA) articula um percurso de autocarro com vídeos no Youtube e a sua localização via Google Earth e, segundo o júri “aponta formas futuras de sobrepor a existência digital e física” como método de descoberta e conexão entre as pessoas.
Bicycle Built For Two Thousand (2009), de Aaron Koblin e Daniel Massey, por sua vez, usa contributos vocais de múltiplos ‘trabalhadores’ para reconstruir uma versão da primeira música a implementar síntese de discurso oral, Daisy Bell, em 1962, e assim valoriza a especificidade da participação social em rede .
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A ênfase temática do Transmediale ganha evidência no simpósio “Future Observatory”, que arrancou com um modelo pouco convencional, a “Futurity Long Conversation”, que reuniu cerca de 21 participantes em sucessão durante 9 horas seguidas. Richard Barbrook introduziu à longa conversa com o mote do seu livro “Imaginary Futures”, falando das ideologias e techno-utopias que modelaram visões do futuro como definições do sentido do presente.
O “observatório futuro” alargou esta reflexão nas restantes conferências, integrando nomes como Conrad Wolfram, que se debruçou sobre a s ideologias e futuros da internet, Siegfried Zielinski, que (na “santíssima trindade” entre passado, presente e futuro) abordou a dualidade entre melancolia e paranóia como pólos de vinculação ao tempo, ou Bruce Sterling que explorou a noção de “atemporalidade” como colisão entre passado, presente e futuro.




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A noção de ‘atemporalidade’ foi igualmente o mote curatorial adoptado para a exposição “future obscura”, olhada através dos materiais, mecanismos e máquinas de produção e mediação de imagens.
Em causa está a forma como distintos “modos de ver” propõem uma relação com a atemporalidade na forma como os dispositivos capturam ou reproduzem a realidade.
Noções de escala e percepção estão implícitas na instalação de Ryoji Ikeda, data.tron [3 SXGA+ version], que através das tecnologias digitais, visualiza e materializa a imperceptível imensidão de dados que permeia o nosso mundo, numa projecção audiovisual imersiva. Quase em oposição à natureza abstracta dos dados de Ikeda, a instalação de Zilvinas Kempinas, White Noise, alude ao suporte de armazenamento criando uma tensão entre imaterialidade digital e fiscalidade do suporte— um aparente écran de “ruído branco” revela-se um conjunto de fita magnética — matéria artística formal de muitos trabalhos de Kempinas.
![Ryoji Ikeda, data.tron [3 SXGA+ version]](http://farm5.static.flickr.com/4060/4345925346_9fe5cda24c.jpg)

Julius von Bismarck, por sua vez, aborda o filme como suporte e processo de percepção do tempo e espaço em “The Space Beyond Me“, uma instalação que procura recriar o processo mental de reconstrução da dimensão tridimensional virtual da imagem através de informação bidimensional.
Baseando-se na metáfora do “Cone da Memória” de Henry Bergson, Julien Maire, monta um dispositivo que a traduz num complexo processo óptico, em que diferentes cronologias confluem numa imagem construída como um compósito electrónico .


Os “Paparazzi Bots” de Ken Rinaldo, ou o “Artvertiser” de Julian Oliver ilustram uma facção mais “reactiva” da exposição. O primeiro critica a ubiquidade da vigilância, com robots que fotografam os visitantes e disseminam as imagens e redes sociais. O “Artvertiser” propõe uma “realidade melhorada”(em vez de aumentada) com a substituição virtual das imagens publicitárias por manifestações artísticas no espaço público.


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Paralelamente, nesta edição, a associação com o CTM (o festival paralelo Club Transmediale dedicado à perspectiva da música e artes associadas) vem reforçada, com uma maior convergência programática e temática: uma série de eventos conjuntos e crescente “institucionalização” das culturas audiovisuais experimentais.
O tema desta edição do CTM , expande-se ao “Overlap” ou sobreposição entre “som e outros media”, como crescente intersecção entre áreas criativas, económicas e sociais.
Neste “overlap”, as interligações entre domínios sensoriais e formas estéticas correspondentes simbolizam a transcendência de fronteiras entre media e disciplinas artísticas.
Estas preocupações traduzem-se no programa diário de conferências. Particularmente, o painel “Morphing and Mingling: sound and art”, sublinhou o tema incluindo projectos de investigação de relevo, como o “See this Sound“, (já apresentado no Ars Electronica em Linz), que põe em confronto diferentes intersecções dos domínios do sonoro e visual, considerando-os na arte, media e percepção, não só como domínios distintos e convergentes, mas como metáfora das divisões e interligações entre artes ‘visuais’, ‘sonoras’ e ‘media arts’.
Como reforço desta metáfora, o extensivo programa de conferências do CTM completa-se na articulação com o Transmediale, que incluiu projectos e performances audiovisuais de Charlemagne Palestine, Ryoji Ikeda, Thomas Köner, Atom TM (Raster Noton) entre outros.
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O tema “Overlap” revê-se nesta sobreposição do espectro específico do CTM (a perspectiva sobre as estruturas independentes da música e culturas audiovisuais experimentais), com o âmbito mais amplo do Transmediale sobre as “media arts” e culturas digitais.
Sem se diluírem, e afirmando a sua especificidade, os dois festivais consolidam afinidades e as suas chaves temáticas, “sobreposição” e colisão do “futuro com o agora”, entram numa possível ressonância. Por um lado desafiam-se fronteiras entre domínios criativos, por outro desafia-se a percepção do progresso e evolução social e cultural num continuo temporal, mas é precisamente a ambivalência e negociação de posições que estas noções contém que torna os temas interessantes e férteis como espaços criativos. Como Bruce Sterling afirmou, a atemporalidade é um fenómeno moderno que apresenta um desafio criativo, mas mais do “prever” o futuro, apresenta o desafio de o “possibilitar”. “why not become the change you want to see?”
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http://www.transmediale.de/
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http://www.clubtransmediale.de/
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