30 anos de Ars Electronica:
Introspecção, retrospecção, prospecção
—
Este ano o Festival Ars Electronica celebrou 30 anos de existência, afirmando uma posição de liderança na intersecção entre Arte, Tecnologia e Sociedade. Linz, a cidade austríaca que aloja o festival foi igualmente protagonista, como Capital Europeia da Cultura, graças ao papel do festival na construção de um território de reflexão e produção, uma actividade dedicada a “preparar as pessoas para o futuro”.
—
Nas palavras de um dos actuais directores artísticos do Ars Electronica, Gerfried Stocker, o festival celebra actualmente as visões sonhadas de uma transformação cultural que agora se revela possível, conquistada com o trabalho de artistas, investigadores e académicos que se dedicam a pensar tópicos relevantes para a sociedade, deslocando-os para fora do gueto intelectual.





—
Natureza Humana, 30 anos e o futuro
—
O peso deste percurso, faz-se sentir no tema: “Natureza Humana”. Uma visão antropocêntrica sobre o impacto massivo das acções e realizações humanas sobre o ambiente, um mundo em mudança e uma visão da humanidade em mudança. O olhar dirige-se não só sobre as consequências mas com consequência, sugerindo a inevitabilidade de pensar o futuro sob o prisma da convergência entre arte ciência e tecnologia. Curiosamente em concordância com o mote lançado para o festival Transmediale (Berlim) que terá lugar no início de 2010 sob a ideia de “futuridade”.
Esta edição do festival reflecte duplamente sobre a consequência de um percurso de 30 anos, e sobre a consequência mais alargada das acções humanas. O “History Lounge” cumpre a primeira vertente, tanto nas “History Talks” como nas apresentações de um conjunto de contribuições que ajudaram a moldar o festival, versando desde a demonstração do Synthesizer que Robert Moog constrói em 1957 com base nas ideias de Max Brand, até “Life Writer” (2006), de Christa Sommerer e Laurent Mignonneau, uma máquina de escrever interactiva que produz vida artificial, ou ainda no projecto de mapeamento dos prémios Ars Electronica.
A segunda vertente desenvolve-se num simpósio e numa exposição que, sob o título Human Nature, reúne abordagens artísticas e design especulativo. A diversidade de aproximações reflecte-se tanto no carácter simbólico da performance “Shrink” de Lawrence Malstaf, que literalmente isola os performers no vácuo, ou no carácter exploratório, testando possibilidades futuras, como em “Soil Clock” de Marieke Staps, um relógio alimentado a lama.
—
Prospectos do mundo global
—
O tema reflecte-se sob outro prisma no Projecto “80+1 – A Trip around the World” que toma o mote de Jules Verne ao percorrer cerca de 20 locais no mundo, usando como “meio de transporte” as tecnologias de comunicação. Os locais de paragem incluem cidades na Índia, China, Paquistão, Bangladeche, Estados Unidos e Europa, que melhor representam os tópicos de reflexão propostos, como o envelhecimento da população, a diversidade biológica, educação, identidade, migração, entre outras preocupações do nosso “futuro global”, tratados em projectos artísticos e académicos.
Paralelamente o simpósio “Cloud Intelligence” – o 81º dia do projecto – usa a nuvem como metáfora da inteligência colectiva, partilhada em rede, potenciada pelas actuais redes e plataformas de comunicação. Analisa-se aqui a explosão de comunidades digitais, nomadismo digital, redes e nichos sociais como um novo nível de globalização que permite a partilha e disseminação de ideias para a reflexão sobre problemas locais a uma escala global.
—
O centro de uma capital [ou a capital de um centro]
—
O peso do festival no estatuto de Linz como capital europeia da cultura, revê-se na abertura do novo Centro Ars Electronica. Inaugurado em Janeiro de 2009, o centro é um marco desta edição, propondo um conjunto de abordagens especulativas ao diálogo e articulação entre arte, tecnologia e sociedade, em duas vertentes: a Investigação e Desenvolvimento e a Expositiva. Não só se expõe trabalhos que exploram temas relevantes, como se inclui a criatividade e produção efectiva desenvolvida pelo FutureLab.
A galeria principal inclui 4 laboratórios numa exposição de “novas visões sobre a humanidade”: BrainLab, BioLab, RoboLab and FabLab, que versam formas de modelar a natureza e cultura humana. O espaço da galeria procura proporcionar aos visitantes uma interacção efectiva com propostas inovadoras na articulação entre arte, ciência e tecnologia.
A componente “Pixelspaces” deste ano, o simpósio anual organizado pelo Ars Electronica Futurelab, sublinha a ideia de passagem do do “Do it yourself” para o “Do it together”, i.e., dedica-se a novas ligações, ainda não institucionalizadas, entre disciplinas e formas de expressão que daí advém. O mote afirma a convergência entre disciplinas, que individualmente já não conseguem dar resposta à complexidade das questões actuais, mas sim no colectivo, na interdisciplinaridade, tal como ilustram os projectos em domínios plurais como o “Future of Retail”, os Labs, o DeepSpace ou o projecto da fachada do Centro Ars Electronica.
A complementar a identidade deste museu do futuro, a fachada do edifício reforça a ideia de mutabilidade e transformação, com projectos de artistas e escolas convidados a usar os 40 mil LEDs da superfície de vidro da fachada, segundo 3 programas: música de fachada, interact! e experiências visuais.
O DeepSpace define-se como um espaço imersivo desenvolvido pelo Futurelab, que propõe uma experiência perceptiva proporcionada pelo som 3D stereo e sistema de projecção de alta definição. Do espectro alargado de projectos artísticos, históricos ou narrativas interactivas, salienta-se a instalação audiovisual Data.Tron [8k enhanced Version] de Ryoji Ikeda (JP), uma abstracção audiovisual calculada por princípios matemáticos, que aumenta e intensifica a percepção de imersão.
Das restantes exposições do centro destaca-se o papel triplo de “Artistas, Criadores, e Engenheiros” que preencheram as actividades do Ars Electronica ao longo de 30 anos, numa exposição de “Device Art” que articula arte, design, tecnologia, ciência e entretenimento. O “Knock! Music Program” de Nobumichi Tosa ilustra a aproximação com um programa que usa, passo a passo, o princípio de uma batuta alimentada por 100V e os mais díspares objectos passíveis de produzir som. Outro exemplo é a sua fabulosa série “Tsukuba” de instrumentos absurdos.
Existe ainda espaço para abordar a “Poesia do Movimento” expondo máquinas que recusam o papel instrumental, de ferramenta, e preferem assumir-se como máquinas “absolutas”, que exploram a sua própria natureza automática e maquinal, como “Quartet” de Jeff Lieberman e Dan Paluska (US) que produz música com bolas de ping-pong, as incríveis estruturas andantes de Theo Jansen (apresentadas em documentação) ou o conjunto de frágeis máquinas, minimais e delicadas, de Arthur Ganson, como a “cadeira pensante” que finge andar.
—
Investigações e artes cibernéticas [prémios]
—
Os prémios dividem-se em oito categorias, e os projectos relativos são apresentados em diferentes vertentes do festival. A “animação computacional” tem um showcase próprio. Os projectos de “Comunidades Digitais”, “Under19-freestyle computing”, ou da bolsa “The Next Idea” dividem-se pelo Centro e pela Brucknerhouse. A categoria “Media.Art.Research” é atribuída a projectos de investigação académica pelo Instituto Ludwig Boltzmann, que este ano, sob o tema “Relações entre som e imagem na arte audiovisual”, premiou o livro “Eye hEar” de Simon Shaw-Miller.
Sob o título “See This Sound” o tema enquadra um projecto de investigação do Instituto, e desenvolve-se num simpósio, exposição e num vasto arquivo on-line, de documentos e obras sobre o amplo terreno das relações entre som e imagem na arte, media e percepção.
No simpósio reúnem-se artistas e investigadores como Golan Levin, ou David Rokeby. A exposição, apresentada no Lentos – Museu de arte de Linz, traça uma perspectiva transversal, desde as contaminações entre formas de arte, cruzamento de media e exploração de modos de percepção, à omnipresença actual de produtos e experiências audiovisuais. Dos desenhos de estudo formal de Hans Richter, experiência com transcrição óptica do som de Oskar Fischinger e Rudolf Pfenninger, à arte intermedia de Nam June Paik, ou à transdiciplinaridade da arte sonora de Max Neuhaus, passando pelas abstracções reactivas de Lia ou traduções de Carsten Nicolai… num rol infindável de obras únicas, algumas lamentavelmente apenas documentadas.
Os projectos de arte interactiva, arte híbrida e algumas instalações enquadradas na categoria de música digital, encontram-se na exposição CyberArts, No OK – centro de arte contemporânea. O projecto de Bill Fontana, “Speeds of Time”, um mapa sonoro escultural dos sinos do Big-Ben, teve o “Golden Nica” de “música digital”. Na “Arte Híbrida” reflecte-se a convergência entre arte e ciência no projecto “Natural History of the Enigma” em que Eduardo Kac cria uma “Edunia” introduzindo o seu DNA numa Petúnia. A experiência do “Nemo Observatorium” de Lawrence Malstaf, uma cápsula em que nos colocamos no “centro” de um ciclone, premiado na categoria de Arte Interactiva, define-se como proposta simbólica de meditação.
Nas menções honrosas destaca-se a instalação de Julius von Bismarck e Benjamin Maus, “Perpetual Storytelling Apparatus”, um dispositivo, e método, para revelar as ligações entre patentes de invenções, percorrendo milhoes de patentes pelas suas referências e produzindo um registo gráfico infindável de misteriosos desenhos associados. Com “Default to Public”, Jens Wunderling transpõe mensagens do Twitter para o espaço público físico, e revela assim que o entendimento de espaço público se altera entre estas esferas.
Alguns dos trabalhos revelam a eminente diluição das categorias instituídas, reflectem uma crescente hibridez —no cruzamento de disciplinas e formas de expressão que daí emergem— e resistem a um estatuto definido ou definitivo. Tendencialmente, a noção de interacção abandona a comum aplicação do termo à situação “homem-máquina” para a implicar ou efectivar no processo e sistema inerente às obras. A indicação “por favor não tocar” talvez nunca tenha sido tão usado nesta exposição…
As estratégias presentes assumem um carácter mais discursivo e programático, afastando-se da mera exploração das possibilidade dos dispositivos. “The New York Times Special Edition” (de Steve Lambert) é um bom exemplo de um projecto que, simplesmente construindo uma edição especial do jornal, após a eleição de Barack Obama com notícias fictícias, que teve um impacto massivo no público. O jornal, editado com data futura, foi entendido como uma visão, um programa para um futuro possível.
É com esta ideia da inevitabilidade de projectar o futuro, de pensar as “consequências” da nossas acções e de definir programas “consequentes”, no discurso e na acção, que esta edição celebrou os 30 anos de um percurso que se propõe como motor de uma verdadeira transformação cultural.
—
http://www.aec.at/humannature/en/
—
[TXT LR]
—
[…]
O OK center dividida o espaço entre a exposição “CyberArts” e a exposição “Thrill of the heights” no âmbito da capital europeia da cultura – Arte nos telhados de Linz – com uma estrutura gigante de madeira que permitia percorrer e contemplar a vista dos telhados, e uma espantosa Roda Gigante instalada no telhado, que com certeza nos lança novas perspectivas sobre a cidade.
















