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TRANSMEDIALE’09

February 25, 2009 · Leave a Comment

TRANSMEDIALE 09
“burning the sound in the deep north”

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O festival Transmediale: festival internacional para arte e cultura digital, apresenta anualmente em Berlim posições artísticas que reflectem sobre o impacto sócio-cultural das tecnologias. Este ano, distinguindo usos criativos da tecnologia e práticas artísticas que exploram e reflectem sobre as mudanças trazidas pelas transformações ecológicas, premiou o Projecto “Burning the Sound” de Rudolfo Quintas (pt).


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Tendo como local principal a [HKW] Haus Der Kulturen Der Welt (casa das culturas do mundo) o festival decorreu entre 27 (Jan.) a 01 (Fev.) dividindo-se em diferentes núcleos. Iniciado como um festival ancorado no filme de vídeo rapidamente assumiu uma perspectiva “transmedia”, em 1998, dedicando-se à arte e cultura digital. Actualmente integra a exposição, o programa de conferências, performances e apresentações em registo informal no “café global” e o “Salon”, neste ano “digital greehouse”— um dos formatos mais estimulantes de apresentação e discussão de projectos.

Nesta edição o tema “Deep North” lançou o desafio de repensar a cultura propondo a questão da transformação ecológica como transformação cultural. Procurando transcender a dimensão alarmista dos discursos ecológicos abordaram-se vocabulários culturais que, de forma crítica, reflectem sobre a complexidade desta equação.

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A “tradição” do Transmediale está inevitavelmente ligada à componente “CTM – club transmediale” que cumpriu este ano o 10º aniversário (em conjunto com o festival canadiano parceiro Mutek) de uma actividade dedicada às culturas audiovisuais independentes, sob o tema “Structures”. Tendo surgido inicialmente como um programa especial paralelo ao Transmediale focado na convergência cultural entre música electrónica e digital, “club culture” e “media arts”, rapidamente ganhou voz própria. Durante 13 dias o programa incluiu concertos, performances audiovisuais, instalações, workshops e painéis de discussão em torno de formas artísticas interdisciplinares e experimentais potenciadas por redes e micro-estruturas da música e media art independente.

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Foi no espaço principal do CTM o club “Maria” [MAO] Maria Am Ostbahnhof que Rudolfo Quintas (pt) apresentou a performance “Burning the sound”, vencedora de um prémio de distinção do Transmediale ‘09, tendo o júri salientado a qualidade do trabalho “equilibrado na forma como alia tecnologia e expressão, composição e performance…”

“Burning the sound” aborda uma das ferramentas mais primárias e essenciais da humanidade — o fogo — matéria de fascínio que no seu duplo papel de elemento destruidor e gerador de energia é aqui alvo de tradução sonora e visual. Rudolfo Quintas tira partido da dimensão ritual e física da performance sobrepondo a expressão a todo o aparato e sofisticação tecnológica subjacente.

O corpo como interface é um tema transversal ao trabalho de Quintas, focado no desenvolvimento de sistema audiovisuais interactivos para performance, de que se destacam a participação no grupo NIP – New Interfaces for Performance, e o projecto SWAP com Tiago Dionísio entre 200 e 2007.

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O outro “award of distinction”, foi atribuído a “Six Apartments” de Reynold Reynolds(us), uma instalação vídeo que retrata a vida em isolamento de 6 pessoas nos seus apartamentos. Um comentário crítico sobre a passividade dos sujeitos que, apesar de na sua rotina diária se confrontarem com as notícias da crise ecológica, seguem sem alterar seus hábitos ou comportamentos em relação à mesma.

O júri atribuiu o primeiro prémio a “Tantalum Memorial” (uk/jp) afirmando critérios como a “qualidade de execução, densidade imaginativa e as suas forças metafóricas e conceptuais”. Este memorial sobre as mortes das guerras “coltan” do Congo baseia-se numa rede de “telefonia social” internacional congolesa, o “telephone trottoire”, accionando dispositivos reactivos à participação da comunidade congolesa de Londres na rede, e proporcionando uma leitura metafórica um fenómeno local com impacto global.

Na exposição “Survival and Utopia: Visions of Balance in Transformation” salienta-se ainda a instalação vídeo de Fernando José Pereira (pt), artista e docente da FBAUP, que de forma poética e contida aborda a necessidade de comunicação e observação de uma pequena povoação remota no Circulo Polar Árctico. “Remoteness” propõe uma observação passiva desse universo distante, realizada com imagens recolhidas por uma webcam, posteriormente trabalhadas para esta contemplação visual e aural.

Próxima no tema a instalação vídeo “Beyond the End – The Polar Project” de Charly Nijensohn (gl), vídeo contemplativo de indivíduos que vagueiam nas plataformas de gelo do Ártico, ou ainda “Sonic Antarctica” de Andrea Polli (us) trata a transformação climática com sonificações, audificações e registos documentais numa instalação sonora e visual.

Os olhares críticos ao “discurso verde” reflectem-se nas “Extreme Green Guerrillas”, uma série de comentários irónicos, mas lúcidos, às tipologias de comportamento “verde”, com que Michico Nitta (uk) propõe soluções para a inviabilidade de existência humana como factor de destruição ecológica. Metaforicamente, “Click & Glue” de Jana Linke (de), reforça a distopia, com o comportamento de um dispositivo que se conduz à sua própria imobilidade.

No espaço do foyer evidenciava-se o tom transitório e nómada implícito no tema na cenografia em que algumas peças se diluíam, nomeadamente “Nuage Vert” de Hehe (fr) trabalho de arte ambiental pública da série “Pollstream”, ou “Time Slip” de Antoine Schmitt (fr) projecção de “news feeds” com o tempo verbal alterado do passado para o futuro, ou mesmo “Tantalum memorial”.

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Em paralelo, o registo informal característico do CTM assume-se num conjunto de instalações, workshops e discussões no [KKB] Kunstraum Kreuzberg Bethanien. Enquadrada neste programa uma outra representação Lusa digna de menção, a medialabel “crónicaelectrónica”. Baseada no Porto e iniciada em 2003 a “crónica” reúne cerca de 40 edições, nacionais e internacionais, com um foco especial na música electrónica experimental e artes audiovisuais relacionadas, e esteve presente no mercado das “Redes Criativas Independentes” entre diversas entidades e iniciativas que promovem e cultivam culturas audiovisuais experimentais e alternativas.

O cruzamento dos temas “deep north” e “structures” embora remoto, parece convergir numa ideia de equilíbrio instável, num “estado de transição”. “Deep North” propõe uma “introspecção global” sobre o papel da arte e cultura digital neste processo de transformação, evidenciando a ideia de rede de relações entre eventos e culturas. Os pontos de ligação e transição entre domínios culturais estão em evidência no tema auto-referencial do CTM, sobre estruturas e redes que, impulsionadas pela tecnologia digital, diluem fronteiras e dissolvem estruturas estabelecidas.

Um “estado de transição” localizável em vários planos, tanto a nível da reflexão sobre o binómio ecologia/cultura, como da sustentação de culturas independentes, ou do reconhecimento internacional de uma arte digital portuguesa emergente. Nestes dois festivais de referência, vocabulários críticos e estruturas independentes exprimem a urgência de prospecção de estratégias para sustentar a mudança procurando “novas formas de ler eventos locais e globais”.

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TRANSMEDIALE 09
CLUB TRANSMEDIALE 09
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PT
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Rudolfo Quintas – Burning the sound @ transmediale
Crónica Electrónica
Fernando José Pereira
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