A terceira sessão deste seminário, “A recriação de conteúdos através da apropriação de imagens”, foi a mais fiel ao programa traçado. Partindo dos conceitos home footage, found footage, imagem virtual e do teste aos limites da representação do real, Daniel Barroca, Pedro Maia e Pedro Henriques, escolheram uma obra para visionamento, para em seguida abrir o espaço para a discussão entre convidados e audiência.
Para Daniel Barroca, trabalhar com material encontrado, parte de uma circunstância casual, num momento onde começou a encontrar com regularidade filmes e da vontade de, com estes, tentar (re)construir um sentido narrativo. Como exemplo, “Barulho#2″ (2005) é um vídeo experimental, onde a preocupação essencial com a manutenção do anonimato se consegue a partir da aplicação de tinta da china sobre a superfície da película. Ao reagir ao calor da projecção, esta converte-se numa textura orgânica e irrepetível. A este autor, interessa-lhe os objectos abandonados que perderam o seu sentido original e onde já não se encontra um particular conteúdo; desprovidos do seu valor emocional essencial, adquirem uma particular estranheza e passam a ser também eles superfície. É essa deslocação ou a “memória desaparecida”, que motivam a aproximação a este trabalho, uma espécie de lugar precário da imagem ou de problema original que o artista procura resolver. A noção de material irrecuperável, de “resto” (se o artista chega a esta matéria é porque esse alguém que gerou a imagem já não lhe consegue chegar), retira a aproximação nostálgica recorrente ao Super8 como pura matéria plástica. Preocupado com a responsabilidade matriz do artista (“aquele que coloca imagens no mundo”), vê no digital uma forma de banalização ou superação dessa responsabilidade, de a tornar obsoleta. A quantidade de informação disponível, por exemplo no “You Tube” redirige o problema da escolha para a escala da escolha. Deste modo, vê este portal como um repositório que retrata exemplarmente uma certa densidade solitária (“como atirar uma garrafa ao mar, na esperança que alguém a recolha”).
Pedro Maia, apresentou a instalação “Portrait. Super 8 Series” (2008) onde testa a possibilidade de reconstrução do vídeo pelo espaço. Deste modo, sai deliberadamente do ecrã de projecção e da sala de cinema para construir um espaço composto por cinco ecrãs. É a deambulação do espectador pelo espaço que constrói a “edição” de cada filme. Para a exploração dos resíduos gráficos da película, ao termo “found footage” prefere o termo “lost footage”. Numa aproximação ao “cinema material” reflecte sobre os elementos estruturais do cinema, a luz e o movimento. O processo aproxima-se da noção de “olhar controlado”, partindo da apropriação e subversão do sentido original na construção de uma nova narrativa, por camadas. Para o autor, as potencialidades expressivas da película como suporte e como conteúdo, transportam por si só um sentido. O Super8, como formato falível e com uma forte especificidade técnica (como os desvios cromáticos e lumínicos, os riscos como demonstração da fragilidade da película), a sua relação histórica com o vídeo doméstico e a possibilidade de registo quotidiano, são os motes essenciais para a obra. Aqui, o suporte passa a ser mais relevante que a imagem ou o registo sonoro (composto totalmente na pós-produção dos vídeos).
Pedro Henriques nega a apropriação da imagem pictórica e prefere explorar as fronteiras ténues entre a apreensão do real e a sua mimetização na representação digital 3d. Como apropriação de um espaço digital (o jogo) testa as particularidades das representações realistas ou do espaço natural. Os limites entre verdadeiro e falso, real e simulacro, transportam-se para o estudo da representação, como questão essencial do seu trabalho. Na mediação entre os dois polos, o autor encontra um espaço para o questionamento—explorando as contradições entre acreditar e simultaneamente desconfiar.
Deste modo, trabalha o vídeo como uma questão por si negando o suporte como uma espécie de fetichismo visual. A questão essencial passa a ser a representação, uma vez que a matéria que trabalha não tem origem (provém da linguagem binária).
Desta forma, parecem ficar claras as distintas motivações para a obra de cada artista: o “resto” como essencial para uma outra história da memória colectiva, na obra de Daniel Barroca, a película como potencial plástico ou expressivo em Pedro Maia, e a paisagem ou o simulacro digital como um novo contexto para a apropriação.
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