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UV/16.12′08: Documentarismo e Multiculturalismo

December 19, 2008 · Leave a Comment

Com o tema “Documentarismo e Multiculturalismo – condição humana e activismo”, a sessão enquadrou o trabalho dos autores Luciana Fina e Tiago Pereira. Partindo do “real observável” e da arte como reflexo de preocupações sociais, os trabalhos apresentados testam os limites dos géneros cinema/vídeo e ficção/documentário.

Luciana Fina coloca a sua obra como efeito do seu percurso pessoal (a naturalidade italiana, o quotidiano em Portugal) e profissional (que passa pela formação em dança, cinema e por fim o vídeo e as artes visuais). Procurando sempre a profundidade trazida pelos territórios em sobreposição, nega, com frequência, a circunscrição da sua obra num domínio específico. Interessam-lhe particularmente as ambiguidades do género e as naturais migrações do cinema para as artes visuais, da sala de cinema para a sala de exposição. A motivação essencial justifica-se pela citação a Pasolini “O cinema permite-nos representar a realidade, usando a realidade.” Como temáticas preferenciais, o confronto do “novo-nómada” (o flanneur que responde ao fascínio da mobilidade, munido do seu computador portátil) com o nomadismo ancestral (a procura incessante do desconhecido ou de uma melhor vida noutras paisagens).

A possibilidade de manipulação da dimensão espacial, traz a autora do cinema para as artes visuais, com a instalação de múltipla-projecção “CCM-Centro Comercial Mouraria” (2002). Tendo por motivação o questionamento do “lugar”, percebe que a sala e dispositivo cinematográfico não lhe chegam; alia a vontade de construção de um tempo e espaço transportado da realidade (Centro Comercial da Mouraria) para a galeria (sala de exposições polivalente do CAM-Gulbenkian). Confrontando documento e representação, “CCM” reconstrói uma realidade, partindo dos princípios das câmaras de vigilância (centrada nos vários patamares da escadaria central do centro comercial—uma verdadeira ascensão pela “Torre de Babel” segundo a autora). Esta obra permite-lhe igualmente explorar a construção de variantes de acordo com os vários locais onde a obra é apresentada (destaca as diferenças de apresentação do CAM para a Galeria Zé dos Bois, por exemplo).

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A posição estranhamente estática que um dos intervenientes no documentário, “Ninguém é Perfeito” (2001) assume sempre que a câmara se ligava (como quem se coloca perante um fotógrafo para um instante que se prolonga por um outro tempo, mais expandido que na fotografia), leva a autora ao desenvolvimento da série de retratos em movimento. A partir desta relação câmara/sujeito, a autora decide evocar a “dádiva do modelo” que se coloca perante a tela do pintor, doando-lhe parte do seu tempo, para a construção de um retrato. A série inicia-se com “Chants Portraits” (2003) apresentada no “Festival Temps des Images“. Nesta instalação, o tempo não se congela na tela, mas expande-se pela imagem em movimento, durante sequências de 60 minutos, com grandes planos de rostos de 3 mulheres (Carla Bolito, Vera Mantero e Isabel Ruth). A partir daqui, constroi uma série de “retratos de rostos em movimento” (“MOUVEMENT portraits” e “VUE portraits”), admitindo que o poder não se encontra apenas na mão que segura a câmara, mas naquele que coloca o seu rosto perante a tensão do espectador.

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Tiago Pereira assume-se como o “documentarista do tradicional”. Constrói a sua obra a partir de registos vídeo e sonoros que se constituem como bases de dados ou documentos do cancioneiro português preservados pela tradição oral. Mas este registo, aqui já não se faz com o olhar antropológico de Michel Giacometti, mas assume a expressão do seu tempo; se lhe cai bem a categoria de “documentarista do tradicinal”, a esta se alia o tempo do remix e do “mash up”. Não é o olhar neutro do documento que procura, mas a expressão contemporânea, uma espécie de revisão da tradição intemporal com os recursos fragmentários da apropriação e fusão dos sinais vídeo e sonoros. O autor procura usar o vídeo como instrumento musical e trabalha a montagem como uma fuga ao desejo de narrativa. O primeiro vídeo “Quem canta seus males espanta” (1998), nega a naturalidade do registo real e simultâneo do som e do vídeo, quando decide montar a sequência vídeo de um pastor alentejano (registado alguns anos antes) ao tocador de acordeão de Odeceixe (anos depois).

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Como processo assume que edita primeiro o som e só depois a imagem (que aqui só se constroi a partir da musicalidade como condição necessária à edição final); os processos de edição fazem-se muitas vezes em tempo real, utilizando o software “Miss Pinky” que permite a manipulação em tempo-real dos canais de som e vídeo, através de “scratch”.
Como objectivos principais procura traduzir um imaginário remoto (a distância da ruralidade e do tempo em permanente sedimentação da tradição oral), para o contexto urbano e contemporâneo. Como motes, a negação da sacralização do repertório tradicional oral, a remistura das recolhas etnográficas, a aproximação do pop com o cancioneiro popular (como é exemplo, o vídeo “Meta” de 2005).

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Para a construção da “Tradição Oral Contemporânea”, vê na obra de B-Fachada um motivo exemplar, ao aliar, à distância de quase 500 anos, o cancioneiro popular com o quotidiano urbano de um “cantautor” contemporâneo.

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