“Pourquoi ça bouge?”
“Objet Petit a” Antoine Schmitt
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pixel blanc – 1996-2001 http://www.gratin.org/
Antoine Schmitt “não fala de tecnologia mas da natureza e realidade do ser humano”. Define a programação como principal especificidade conceptual do computador como meio, que potencia uma pesquisa em torno das qualidades inerentes à sensação de vida em “entidades programadas”. A visita à sua exposição “Objet petit a”* na Galeria Numeriscausa foi o ponto de partida para esta conversa com Schmitt, em Paris.
Vida animada
Schmitt introduz-nos sem reservas ao seu trabalho desenvolvido em torno da criação de formas semi-autónomas, “sensíveis”, generativas, e por vezes interactivas. Associa-o a duas problemáticas essenciais: “a criação de uma realidade e a criação de vida animada”. A “vida animada” é abordada como uma metáfora mecânica, em que som e imagem emergem como manifestações de um processo, de uma origem comum. O som imprime fisicalidade à imagem, torna-a material e transforma a imagem em objecto “real e físico”. Considera que “um programa é um objecto dinâmico, age e reage em função de estados internos ou em relação ao seu ambiente: tem um comportamento”. Comportamento que Schmitt caracteriza como uma “atitude” do sistema, atributo evocativo da “essência do ser”.
Vida presente
A série de instalações visuais “Still Living”, (2004) (segundo prémio Transmediale.07) põe em evidência o tempo real da existência de um processo num conjunto de gráficos “vivos”, animados pelos parâmetros que simultaneamente descrevem. Igualmente “Pixel Blanc” (1996) sublinha o tempo “presente” da sua ocorrencia, ao traçar, num registo despojado, a trajectória aparentemente autónoma e arbitrária de um pixel. Já “Vexations” (2000) (menção honrosa na Transmediale01 – 2001), inspirada na peça homónima de Erik Satie, consiste num sistema autónomo, que dependendo das forças que definem o comportamento de uma “bola”, cujo impacto com os limites do écran produz um tom musical, e origina a reprodução de uma melodia com diferentes variações temporais, num processo contínuo, variável e potencialmente infinito.



Still living – 2006 + Vexation 1 – 2000 http://www.gratin.org/as/
Composição e improvisação
Schmitt considera determinante para a relação que o público estabelece com a obra a consciência de que o processo generativo se desenvolve em tempo real, no “aqui e agora”. Faz uma analogia entre um processo em tempo real e a noção de improvisação, oposta à ideia de composição e linearidade do processo: “Um filme remete para a sua escrita, a relação estabelece-se com a composição”, um processo em tempo-real “remete para a noção de interpretação, potenciando uma empatia, tal como acontece com a improvisação”. Os processos de improvisação revestem-se de uma expressão particular, fruto do tempo e circunstâncias em que se desenrolam, uma “interpretação ao nível da sensação”.
Desta forma, a peça “vexations” evoca a “interpretação” de uma melodia com margem para “improvisação”. Por sua vez, o sistema “Nanomachine” (2002-2004) acentua a dimensão performativa da “interpretação” numa performance audiovisual em que o processo é exposto, é projectado e “se torna legível para o público“.
A “Nanomachine” define-se como uma máquina rítmica, semi-autónoma em que a causalidade (entre objectos e entre suas manifestações áudio e visuais) é ligeiramente desregulada e posta em mutação.
Autonomia e controlo
Estas formas ou entidades autónomas reagem ou interagem no seu próprio sistema de relações e jogam com a “liberdade e condicionamento” imposto pelas regras do mesmo. Nestes automatismos a possibilidade de interacção pode ser uma forma de influenciar o sistema de relações criado e questionar a noção de autonomia e controlo do sistema.
O projecto “Display Pixel 3″ trata com bastante complexidade esta noção. Como performance audiovisual, desenvolvida em colaboração com Vincent Eplay entre 2001 e 2006, consiste num sistema que reage e usa o input sonoro de Eplay em cenas visuais reactivas. A matéria visual tanto “reage” como “age” em termos sonoros, parcialmente controlada em tempo-real por Schmitt. Som e imagem são materiais separados mas interligados numa relação causal, numa ciclo de relações complexas que suscita um questionamento no espectador sobre a mecânica da obra e do sistema. “A máquina torna-se tão complexa que ganha autonomia, perde-se a possibilidade de controlo […] evoca o aleatório e arbitrário, a indeterminação”.
“estética da causa”
Schmitt leva o público a questionar-se sobre a origem do comportamento do sistema, é de uma “estética da causa” que o seu trabalho trata.“O espectador tenta interpretar as causas do sistema e do universo criado […] A causa das coisas tem que ser legível, dedutível, pois a causa é a questão que se quer suscitar, é a questão de fundo. Som e imagem são forma de tornar a causa física, de a materializar […] som e imagem não tem um significado à priori, dependem de uma ‘infralinguagem’ na sua génese, e é na acção que adquirem sentido.”
A possibilidade de interacção auxilia a interrogação da causa, promove uma consciência do processo permitindo interferir no mesmo. A interacção pode ainda tornar-se o assunto principal da obra, como no caso de “Psychic” (2004), instalação interactiva que responde à presença do público e a descreve em frases projectadas na parede. Esta peça usa a linguagem do espectador/participante para atribuir sentido às suas acções. O espectador não só observa o output da peça como é observado e implicado no jogo causal. A peça descreve assim “o seu propósito, o seu processo de observação”.

Psychic – 2004 – 2005 http://www.gratin.org/as/
Causa como processo
É no acto de gerar, no processo inerente ao resultado e não no resultado que Schmitt centra a sua criação. Usa de “minimalismo” e redução ao essencial, como se quisesse eliminar a hipótese de nos fixarmos num resultado. Em última instância “nada é fixo, tudo é efémero, o importante é o que acontece aqui e agora”. “Não existe resultado, apenas processo”.
O foco na génese da acção e do movimento, leva-o a considera-se como um descendente da arte cinética, sucessor de Tinguely ou Calder. Aborda “as mesmas problemáticas, do acaso e da mecânica do movimento, desmultiplicando-as”. A constante questão do discurso de Schmitt: “pourquoi ça bouge?” reforça uma visão do computador como ferramenta de programação e meio de criação e expressão coerente com a sua natureza específica, como “lugar para a existência de processos”.
Nesta rentrée não faltarão oportunidades para ver o seu trabalho, com mais de 10 apresentações até Outubro, desde a participação na 5ª bienal de media art de Seoul, festival Upgrade na Macedónia e várias apresentações em festivais e feiras de arte francesas. Mais próxima fica a possibilidade de ver a versão online da sua nova peça em www.gratin.org/timeslip.
Antoine Schmitt
http://www.gratin.org/as/
Galeria Numeriscausa
http://www.numeriscausa.com
* “Objet petit a”, um termo adoptado de Lacan que remete para a pulsão de agir foi o mote da exposição individual de Antoine Schmitt apresentada na galeria “numersicausa” em Paris. Segundo uma filiação na arte minimal, conceptual e cinética, a galeria alojou algumas das obras mais representativas do percurso de Schmitt dedicado à arte e programação, confirmando-o como uma das figuras mais representativas da criação digital francesa.